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O Turismo de Saúde e Bem-Estar e sua relação com a Medicina: uma abordagem do ponto de vista médico

Turismo de saúde e bem-estar é a denominação de uma atividade ampla que envolve
diversos outros segmentos com terminologia própria como o turismo médico, estético,
terapias diversas como a talassoterapia, hidroterapia, etc. O que se percebe é uma confusão
na interpretação da atividade como sendo turística e não médica. O turismo de saúde é uma
atividade essencialmente médica, sem a qual não existiria ou haveria razão de existir, pois o
tratamento é o objetivo ou a motivação da atividade fim. Nas atividades de bem-estar a
presença do médico também é essencial com estabelecimentos envolvidos nesse segmento
sendo dirigidos ou tendo o acompanhamento médico. Mas, por que tantos associam o turismo
de saúde, turismo médico etc. mais com a atividade de turismo e não com a medicina?

Devido a origem e antiguidade da atividade que remonta ao início da história humana
moderna, a atividade de busca de tratamento médico envolvia viagens longas, cansativas e
perigosas. Obviamente o viajante precisava de transporte, alimentação e hospedagem para
chegar ao médico que o trataria. Assim, esses serviços de alimentação, transporte e
hospedagem necessários ao deslocamento do paciente estão relacionados à atividade
turística, contribuindo para que o doente chegasse ao local de tratamento, recebesse o
cuidado e retornasse. Não era diferente com a busca de terapias complementares ao
tratamento médico e de bem-estar cuja antiguidade é ainda maior.

Como tantas outras atividades como o turismo religioso, cultural, ecológico, etc. o
turismo médico ou turismo médico-hospitalar também foi inserido nesse contexto de
atividade turística por utilizar-se dos meios e infraestrutura para atingir um fim; neste caso a
busca pelo tratamento médico ou de saúde. Talvez se houvesse recebido alguma definição
voltada para a área da saúde e não para o turismo, teria certamente maior aceitação pela
classe médica. Porém, trata-se de mera terminologia não significando tratar-se de atividade
essencialmente turística.

O objetivo: o tratamento médico.
Meios para alcançar o tratamento: utilizando-se de diversos segmentos da atividade turística.
São atividades de meio para se chegar a um fim: o tratamento médico-hospitalar.

Apesar da motivação ser essencialmente médica, o paciente em trânsito normalmente
utiliza com maior intensidade e por maior tempo a estrutura turística em detrimento da
estrutura hospitalar. São apenas estruturas de apoio para que o paciente possa conseguir o
tratamento em local distante da sua residência. Sem essa estrutura seria inviável ou difícil uma
pessoa viajar de locais distantes em busca de um médico ou hospital. O tratamento é o
objetivo e, portanto a parte mais importante da atividade. É a razão da existência da atividade
turística na saúde.
Há algum tempo as viagens em busca de tratamento era a exceção no segmento de
saúde, com os pacientes localizando-se nas proximidades do consultório ou da unidade
hospitalar. A busca em outros países ocorria na maioria das vezes para casos raros ou onde se
imaginava encontrar a cura. Embora os hospitais e médicos ainda atendam na sua grande
maioria pacientes do entorno ou da área em que estão localizados, parte do fluxo são
provenientes de cidades ou áreas próximas. Cujas localidades carecem da especialidade ou da
estrutura hospitalar para atendimento.

Em grandes capitais como São Paulo, diariamente chegam pacientes de cidades
próximas, de outras regiões, Estados e até mesmo do exterior para alguma forma de
tratamento. Hospitais de excelência e médicos renomados costumam estar localizados em
grandes centros urbanos atraindo casos críticos ou de maior complexidade, além de maior
volume de pacientes. Na maioria dessas situações é utilizada a estrutura turística de
transporte, alimentação e muitas vezes hospedagem. Essa tão conhecida faceta ficou sendo
conhecida no Brasil e no mundo como Turismo Médico, ou Turismo de Saúde quando vai além
do ambiente hospitalar abrangendo também outras formas de tratamento complementar.
Com a redução das barreiras e distâncias entre países, os tratamentos médicos
também deixaram de ter fronteiras com pacientes procurando tratamento aonde quer que ele
esteja. Seja em virtude de preço, de inovação, por motivos legais que impedem determinadas
práticas médicas em alguns países, dentre outros motivos. Assim como a medicina não possui
fronteiras, não seria de se estranhar que os tratamentos também não tenham.
Um engano muito comum tem sido a ligação que os profissionais de saúde atribuem
ao turismo médico ou de saúde, de que o paciente viajará para um tratamento enquanto fará
atividades turísticas e de aventura. Embora nada impeça uma pessoa de visitar um museu ou
buscar um restaurante enquanto está em período de convalescença após a alta hospitalar, isso
ocorreria apenas após a liberação médica quando o paciente precisa permanecer no país

aguardando a liberação para a viagem de volta. Muitos mitos criados e difundidos sem
controle parecem ter ganhado força entre os profissionais de saúde, impedindo-os de
entender o grande valor da atividade turística para o setor de saúde.
Nenhuma área é estanque, e não seria diferente com a área da saúde. As áreas se
relacionam se complementando cada qual com sua oferta de serviços para a consecução de
sua atividade fim. As atividades de saúde estariam seriamente comprometidas não existisse a
complementaridade dos serviços de alimentação, transporte, hospedagem, segurança,
manutenção dentro outras. A visão estritamente cartesiana impede entender o todo holístico
que contribui para que um hospital funcione e o médico possa desempenhar sua função. Em
suma, o turismo de saúde e bem-estar e seus segmentos como o turismo médico são
atividades mais voltadas para a saúde do que para o turismo, embora utilizem mais a estrutura
de turismo do que a hospitalar.
Alguém poderia questionar sobre a razão da existência dessa atividade que é tão
antiga quanto a história escrita comprova, com as viagens realizadas desde a antiguidade em
busca de tratamento e cura. Com o tempo a estrutura de apoio a essas pessoas tornou-se
essencial para que não apenas os mais abastados pudessem viajar, e sim qualquer pessoa que
necessitasse pudesse. Para o médico independe de onde o paciente venha, a sua prática e o
compromisso com a vida não distingue língua ou origem. Enlevando sua prática, há os que se
tornam referência e são alcançados onde quer que estejam. Não importa a distância, custo ou
sacrifícios, o paciente que acredita no seu tratamento o encontrará crente de alcançará o alívio
de que necessita.
As motivações para que o paciente esteja disposto a viajar em busca de determinado
tratamento ou médico são muitas. Custos elevados de tratamentos no país de origem, a falta
de acesso a novos métodos e terapias disponíveis em outros países, novas drogas e
equipamentos não disponíveis onde o paciente resida, além de muitos outros motivos como
médicos que são referência em determinadas especialidades são as molas propulsoras da
atividade. Uma das facetas menos visível dessa atividade são as viagens regionais dentro do
próprio país, com pacientes de regiões com menos recursos indo para grandes centros
urbanos mais estruturados. É digno de nota que os mesmos críticos do turismo de saúde
internacional tem estimulado o turismo de saúde regional, sem perceber que a atividade é a
mesma, por desconhecerem como esse segmento funciona.
Se houver alguma chance de cura, de alívio ou de aumento da expectativa de vida de
um paciente, este dispondo de meios e recursos viajará para onde o tratamento estiver. Mas,
para que isso ocorra dependerá dessa estrutura tão essencial aos viajantes como transporte,
hospedagem e alimentação. Em muitas regiões a hotelaria se especializou com suítes e
infraestrutura preparada para receber pacientes oriundos de hospitais, que precisam
permanecer no local até receber a alta médica definitiva. Em um mundo sem fronteiras, não
seria de esperar algo diferente quando se trata da busca do melhor tratamento possível.
Assim, o médico está envolvido na atividade de turismo de saúde e bem-estar
independente de sua vontade, sendo, porém, a razão da existência dessa atividade. Causa
estranheza a resistência de muitos profissionais de saúde quanto à atividade que nasceu
justamente em virtude do seu trabalho. Provavelmente a falta de informação acurada e a

imposição do esprit de corps tão presente em algumas profissões, impeça que o argueiro da
falta de conhecimento se sobreponha à justa busca pela saúde e vida, algo que nenhuma outra
profissão tão nobre poderia oferecer.
Dentro da atividade de saúde e bem-estar muitos pacientes procuram por tratamentos
complementares, sejam estéticos, hidroterápicos, fitoterápicos e até mesmo a busca pelo
relaxamento físico e mental. Tais tratamentos não substituem o tratamento médico, sendo
complementares dentro de uma visão holística resultando na medicina integrativa. Antes
cartesiana, a medicina moderna passou a entender que outros fatores biopsicossociais podem
afetar ou comprometer o tratamento médico, resultando numa medicina moderna que
entende e trata o paciente como um todo.
Essa nova forma de entender e tratar o paciente tem resultado em menor tempo de
hospitalização, no surgimento de procedimentos menos invasivos, na desospitalização e na
utilização de terapias que estimulam o bem-estar inserindo-as na rotina médica e hospitalar. A
utilização de serviços supervisionados por médicos como spas, talassos, centros de
hidroterapia dentre outros tem ajudado muitos pacientes a aumentar a qualidade de vida
durante o seu tratamento. Efeitos colaterais ruins de tratamentos agressivos são amenizados
quando associado a terapias complementares que resultam em bem-estar, ou integram o
cuidado indo além do consultório ou do hospital.
Estas são as novas facetas das muitas transformações que a sociedade tem
presenciado, com o cuidado médico extrapolando o ambiente hospitalar para alcançar espaços
antes impensados. Assim como a tecnologia tem impactado nos tratamentos, outros fatores
também estão sendo levados em conta ao tratar o paciente como um todo. Cabe aos
profissionais da saúde, individualmente ou como corpo entender essas mudanças e se adaptar
a elas, evitando lutar contra a evolução da própria área de atuação. Esse é certamente o futuro
da medicina e a medicina do futuro.

Adalto Godoi

Administrador pela London School of Economics/University of London, possui MBA pela Universidade de São Paulo/USP, além de outra graduação em Turismo e Hospitalidade e uma especialização em Gestão de Pessoas. É autor de livros e artigos no Brasil e exterior. Professor, profissional da humanização e hospitalidade em hospitais, atua há trinta anos no segmento de saúde e áreas relacionadas ao turismo. Livros publicados

Adalto Godoi
Adalto Godoi
Administrador pela London School of Economics/University of London, possui MBA pela Universidade de São Paulo/USP, além de outra graduação em Turismo e Hospitalidade e uma especialização em Gestão de Pessoas. É autor de livros e artigos no Brasil e exterior. Professor, profissional da humanização e hospitalidade em hospitais, atua há trinta anos no segmento de saúde e áreas relacionadas ao turismo. Livros publicados

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